Sexo, Poder e Sedução

25 jan

Roupas de couro e borracha, sapatos de saltos altíssimos, botas bizarras, espartilhos. Apesar dessas peças extremamente comuns no mundo fetichista serem”populares” há quatro décadas, apenas nos últimos dez anos elas ganharam espaço no guarda-roupa feminino, graças a estilistas renomados como Jean Paul Gaultier, Claude Montana e Gianni Versace (morto em 1997), que as introduziram nas passarelas internacionais.

O fetichismo – em que objetos e peças relativas à figura feminina, como sapatos e espartilhos, são mais valorizados do que o ato sexual em si, chegando a ser cultuados – foi tratado como uma espécie de patologia sexual e mantido no submundo até a década de 60, quando as pessoas, embaladas pela liberação sexual, começaram a reavaliar os comportamentos sexuais.

Não é possível precisar exatamente quando o fetichismo começou. Há duas teorias a esse respeito, ambas baseadas em evidências. A primeira argumenta que o fetichismo existe desde que o mundo é mundo e que se trata de um fenômeno universal, tomando como base, entre outras coisas, a atrofia dos pés femininos na China. A segunda teoria – a mais aceita – sustenta que o fetichismo, como conhecemos hoje, se desenvolveu apenas na sociedade ocidental moderna, tendo surgido na Europa no século 18 e se tornado um fenômeno sexual distinto somente na segunda metade do século 19, quando ocorreu uma espécie de “revolução sexual”, durante a qual atividades e comportamentos sexuais tradicionais começaram a evoluir em direção ao padrão moderno. 

Foi nessa época, inclusive, que a palavra fetichismo foi pela primeira vez empregada para designar qualquer coisa que fosse irracionalmente adorada. O primeiro a usar a palavra fetichismo com um sentido parecido com o moderno foi Alfred Binet em seu ensaio “Le Fetichisme dans L’amour” (O Fetichismo no Amor), de 1887. A partir daí, o “fetiche erótico” foi adotado por muitos estudiosos de desvios sexuais, como Richard von Krafft-Ebing, que cunhou os termos sadismo e masoquismo.

O Fetichismo e a Moda

 
Madonna com figurino fetichista, usado no videoclipe “Erotica” em 1992

Por SABRINA CAIRO

A imagem e a moda fetichista permaneceram no obscurantismo, escondidas em revistas sobre sexo como a “High Heel” (Salto Alto), até a década de 60, quando os “normais” passaram a se vestir do mesmo modo que os “pervertidos”, motivados pela liberação sexual e pela necessidade de ir contra toda tradição recatada, vista como um produto judaíco-cristão e burguês.
A primeira moda fetichista que alcançou aceitação popular foi a chamada bota bizarra, até então associada a prostitutas, especialmente dominadoras. Essas botas de couro e salto alto, lançadas em 1965, podiam ser da altura dos joelhos ou até das coxas, e eram freqüentemente abotoadas ou amarradas. 

Um dos elementos que contribuíram para essa popularização foi o seriado de televisão “Os Vingadores”. Nele, Diana Rigg interpretava Emma Peel, uma mulher poderosa e sensual que usava, além dessas botas, uma “catsuit” (macacão tipo fantasia felina) de couro diretamente inspirada pelas roupas fetichistas criadas por John Sutcliff. 
Nessa época, as roupas masculinas também se tornaram mais eróticas, e o rock and roll contribuiu bastante para isso. A maioria dos cantores de rock, visíveis ditadores de tendências, usavam roupas de couro coladas à pele, além de tatuagens e acessórios de couro. Nesse cenário, também cabe lembrar dos punks que, impulsionados por bandas como Sex Pistols, incorporaram à moda vários objetos ofensivos ou ameaçadores, como coleiras e correntes. As mulheres punks, principalmente, tiraram do armário meias arrastão, saltos agulha e capas de borracha. 

Mas foram nos anos 70 em particular que a revolução sexual tornou-se um fenômeno de massa. Nesse momento, a censura enfraqueceu e a comercialização do sexo e sua conseqüente transformação em mercadoria se acelerou. Botas bizarras e espartilhos, por exemplo, eram vendidos em lojas de departamentos a um preço irrisório. Até os psiquiatras adotaram um tom mais permissivo em relação ao fetichismo masculino e passaram a reprovar esposas que se incomodavam com os pedidos dos maridos fetichistas.
As roupas dessa época, em geral, acabaram se caracterizando por uma grande dose de erotismo perverso e violência sadomasoquista. É desse período também o fetichismo chique, criado pelo fotógrafo alemão Helmut Newton.

Apenas no início dos anos 80 tanto a psiquiatria como as pessoas começaram a rever sua posição no que diz respeito ao fetichismo, que passou a ser avaliado juntamente com todo material pornográfico e sexualizado. Principalmente as feministas começaram a chamar a atenção para a maneira como o comportamento sexual masculino explorava ou até mesmo desumanizava as mulheres.
No entanto, esse pensamento mais conservador não impediu o surgimento dos clubes de moda fetichistas em 1983, onde fetichistas de plantão até hoje se juntam a jovens modernos com tendência ao fetichismo. Nesta década também surgiram os góticos, que deram seqüência ao interesse dos punks pelo fetichismo, traduzindo uma maneira mais extravagante de se vestir, e as bad girls, que trabalhavam com uma imagem mais agressiva, conveniente à mulher moderna.

Apesar de toda essa transformação e aceitação, o fetichismo só se tornou uma referência para a moda internacional na década de 90, pontualmente em 1992, com a coleção de “amarrados” apresentada por Versace. Gaultier já havia feito incursões neste mundo, quando recuperou os espartilhos – esquecidos desde o começo do século 20 – com sua célebre peça rosa criada para Madonna, que a cantora usou em sua turnê européia “Blonde Ambition”.
Essa tendência ao fetiche e a seu repertório visual extremamente característico se cristalizou na forma de um revival do estilo Emma Peel, que pode ser percebido no filme “Batman – O Retorno”, em que Michelle Pfeifferusa uma “catsuit” de borracha colada à pele, fazendo referência a uma mulher dominadora. Os clubbers, extremamente receptivos à moda, também incorporaram rapidamente essas peças no seu visual moderno, assim como o mundo gay.

Como toda moda – em que o pensamento vigente e a condição das mulheres no momento são traduzidos pelos estilistas em modelos que correspondam às necessidades femininas -, a adoção do estilo fetichista está diretamente relacionado com a mulher ideal da década de 90, ou seja, com a mulher forte, poderosa e independente. O apelo dessa moda está basicamente aí, e não no fetiche como objeto de consumo masculino, como se pode pensar.

 

Fonte: http://almanaque.folha.uol.com.br

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